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| Quarto de badulaques (XXIV) |
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A mulher havia perdido um
seio. Chorando, ela abraçava o marido, sentindo-se
mutilada na sua feminilidade e beleza. Como poderia
continuar a ser amada pelo marido. O marido a aperta
carinhosamente contra o peito e lhe diz: “De agora em
diante, ao abraçar você, o meu peito estará mais
perto do seu coração...” Era
o dia 1º de maio, dia do trabalho. Cidade vazia, céu
muito azul. Subia com o meu carro em direção a
Pocinhos do Rio Verde. Estranhei que houvesse tantas
pessoas trabalhando no jardim da praça dos Expedicionários,
ao fim da Rua Eduardo Lane. Não, não eram funcionários
da prefeitura. Fiquei curioso. Parei. Desci do carro e
perguntei. Um homem me respondeu, sorridente: “Somos
da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.
Resolvemos aproveitar o dia para cuidar desse
jardim...” Fui tomado por uma perplexidade alegre.
Tive vontade de abraçar aquele homem. Eu, que não sou
de Igreja, amei aqueles desconhecidos. Pode ser que
nossas idéias teológicas não combinem. Mas, que
importa? Concordamos em que jardinagem é um ritual litúrgico,
uma forma de anunciar o Paraíso. Deus é jardineiro.
Criou o universo para plantar nele um jardim. Pensei que
há tantas comunidades religiosas em Campinas. Não
seria bonito se cada uma delas tomasse um jardim público
sob os seus cuidados? Há
árvores maravilhosas em Campinas, árvores que merecem
ser vistas. Três delas se encontram na praça defronte
ao Hospital da Beneficência Portuguesa. Enormes. Não
sei o que são, porque nunca vi iguais. Algum agrônomo
ou paisagista poderá me dizer? Também na Fazenda Santa
Elisa, no gramado central, há três lixias, as maiores
que já vi, grandes como as mangueiras antigas. Seria
interessante que houvesse mapas com caminhos de
peregrinação pelas árvores: o caminho dos ipês
floridos, o caminho das quaresmeiras floridas, o caminho
das patas de vaca floridas... Pois não há as estações
da paixão de Cristo que os devotos visitam de forma
compungida? O caminho das árvores floridas talvez
pudesse ser chamado de Estações
do Cristo Ressuscitado, a ser trilhado com alegria.
Olhar as árvores é uma forma de oração. Triste
é a praça do Castelo, sem árvores, deserta, vazia de
pássaros e sombras. Terá sido projeto do Niemeyer? O
Niemeyer detesta árvores. Ele ama as formas geométricas,
perfeitas por sua beleza imóvel. A beleza imóvel é
eterna. Não está sujeita às transformações do
tempo. Uma vez construídas elas atravessam os séculos.
Mas o preço que se paga pela eternidade das formas é
que elas têm de estar mortas. A inspiração vem das
pirâmides, que são monumentos mortuários. Já
visitaram o Memorial da América Latina? Um horror. Os
interiores têm a beleza imóvel dos sepulcros. Creio
que, se ele pudesse, faria árvores de cimento. É
preciso ressuscitar a praça morta do Castelo. Plantar
árvores. Palmeiras, por amor aos céus. Calaburas, por
amor aos pássaros. Magnólias, por amor ao perfume.
Sombras. Bancos. Fontes... A
menininha vivia numa solidão imensa. Seus pais não
permitiam que ela tivesse amigos. “Bastam os
parentes”, diziam. As janelas da casa eram protegidas
do exterior por persianas abaixadas que criavam um espaço
interior de sombras, triste. Pelas frestas das persianas
ela olhava o mundo luminoso que vivia lá fora. Sua casa
não era sua casa. Não havia nela espaço para sua
solidão. A solidão da criança é aquele mundo em que
ela está protegida da vigilância adulta. Da minha infância
tenho memórias felizes dos meus espaços solitários,
espaços da minha liberdade. Há os grandes espaços
solitários, a criança correndo livre, longe dos olhos
adultos. Vejo-me soltando pipa... E há os pequenos espaços
solitários, os espaços aconchegantes. As crianças
gostam de fazer cabaninhas, sonham com uma casa no alto
de uma árvore, onde os adultos não chegam. Pois essa
menininha descobriu o seu espaço, espaço que era só
dela, ninguém mais sabia, ninguém entrava nele: era um
taco de assoalho solto no fim de um corredor. Quando ela
levantava o taco ele se transformava na caverna de Ali
Babá, cheia de tesouros. Ali a menininha guardava
pedrinhas coloridas. Não importava o valor das
pedrinhas. Importava que elas eram o seu tesouro, as
suas jóias... Naquele espaço ninguém mais entrava. Só
ela... A
poesia gosta mesmo é de coisas simples. Basta uma
imagem banal. Uma vez escrevi um longo artigo sobre algo
de que já me esqueci. Só me lembro que, em meio às
muitas palavras, eu escrevi “o cheiro bom do capim
gordura”. Pois me escreveram, lá do sul de Minas, pra
falar não sobre o meu artigo, mas sobre o cheiro bom do
capim gordura. A Adélia Prado é especialista em fazer
poesias com insignificâncias. Quiabos, chifre
de veado, ora-pro-nobis, tanajuras, galinhas, ovos,
escamação de peixes, a mãe cantando enquanto
cozinhava exatamente arroz, feijão roxinho e molho de
batatinhas são todos entidades dos seus poemas. Por que
é que os poetas são assim tão ligados às insignificâncias?
Porque é com insignificâncias que a vida é feita.
Pois eu escrevi sobre a insignificância de chupar
laranjas... e aconteceu igual ao que aconteceu com o
cheiro bom do capim gordura. O Zé, marido da Adélia,
me mandou e-mail imediato – coisa raríssima! - lá de
Divinópolis, juntando-se a minha conversa sobre os
jeitos de chupar laranja. E ele me disse que por lá os
pobres também chupavam de gomo. Só que enfiavam o gomo
inteiro na boca, depois cuspiam os caroços e engoliam o
bagaço. Isso, por causa da prisão de ventre. Se eu
escrevi e o Zé me respondeu é porque a amizade se faz
com insignificâncias. Em Minas Gerais até jeito de
chupar laranja é poesia... Nos
meus anos de professor na Unicamp conheci uma professora
de quem me tornei um grande amigo: Vilma Clóris de
Carvalho. Sua especialidade e prazer era a
neuro-anatomia. E até freqüentei um dos seus cursos
como aluno igual aos outros, pra valer. O que eu mais
admirava na Vilma é uma virtude que está ficando cada
vez mais rara: ela era apaixonada por ensinar. Gostava
dos seus alunos. Digo que a paixão por ensinar está
ficando cada vez mais rara porque nos relatórios de
avaliação que os professores têm de preencher para os
órgãos oficiais de controle burocrático, as
atividades de ensino nem mesmo são mencionadas. O que
vale são as pesquisas publicadas em revistas
internacionais. Os professores, assim, deixam de ser
professores. Transformam-se em pesquisadores. Os alunos
não importam. Na realidade, atrapalham... Eu,
pessoalmente, acho que ensinar é muito mais importante
que pesquisar. Porque é no ensino que se aprende a
pensar. E é da capacidade de pensar que surgem os
pesquisadores. Se a pesquisa é um fruto, o ensino são
as sementes que foram plantadas. Sem sementes não há
árvores, sem árvores não há frutos. Pois a Vilma
vivia para plantar, vivia a ensinar a pensar. Era uma
verdadeira educadora. Uma das práticas mais comoventes
de suas atividades como professora de anatomia era a
“Missa do Cadáver”. Lidando com peças anatômicas
diariamente o aluno pode se tornar insensível e
embrutecido, esquecido de que aquelas peças um dia
foram um corpo que sonhou, sofreu, amou – alguém como
nós. A “Missa do Cadáver” era para que os alunos
se lembrassem das pessoas... Lembro-me de que, numa das
missas, sobre a mesa eucarística, dentro de um
recipiente de vidro, havia um coração vermelho. Houve
tempo em que aquele coração batia... O caráter da
Vilma marcou os seus alunos. Aposentou-se. Mudou-se para
Recife. Escreveu um lindo livro em que aparecem
combinadas as suas memórias de vida – fascinantes!
– e o seu trabalho como professora e pesquisadora: Vivendo
sem calendário. Eu acho que a Vilma merece, pela
sua seriedade como pesquisadora e sua dedicação como
professora, o título de Professora Emérita da Unicamp. Quem vai tomar a iniciativa? “É
preciso que aquele que pensa não se esforce em
persuadir os outros a aceitar sua verdade... (Esse é) o
lamentável caminho do ‘homem de convicções’; os
homens políticos gostam de se qualificar assim. Mas o
que é uma convicção? É um pensamento que parou, que
se imobilizou, e o ‘homem de convicções’ é um
homem tacanho; o pensamento experimental não deseja
persuadir mas inspirar; inspirar um outro pensamento, pôr
em movimento o pensar.” Eu
estava em processo de mudança. Numa sala, uma montanha
de livros. Um dos carregadores olhou assombrado para os
livros. Era certo que nunca havia visto tantos. E
comentou: “Como deve ser difícil decorar todos esses
livros...” Achei engraçado. Mas é isso que talvez a
maioria das pessoas pense sobre os livros: livros são
instrumentos de tortura. Não lhes passa pela cabeça
que os livros possam ser instrumentos de prazer. Se o
soubessem, gastariam menos tempo com a televisão. É
obrigatório que se veja o filme Frida.
Deixou-me mudo. Qualquer comentário seria uma impertinência.
Uma estória de um amor conturbado, de beleza, de
vontade de viver, de força. Nietzsche, no seu livro O
nascimento da tragédia, observou que os Gregos
tinham um agudo senso da tragédia. Para eles, a tragédia
permanecia tragédia até o fim, não tinha um final
feliz. Os Cristãos, ao contrário, não sabem o que é
tragédia. No final das contas tudo se resolve para
melhor no outro mundo. E ele se pergunta: Sendo assim
possuídos por esse sentimento trágico da vida, por que
é que os Gregos não se suicidaram? E a sua resposta
foi: Porque eles conquistaram a tragédia pela beleza. A
tragédia continuava tragédia. Nada havia que a
amenizasse. Mas a beleza a transfigurava. A beleza a
tornava suportável! Mais do que isso: era mesmo possível
amar a tragédia – o que explica as razões por que o
povo voltava sempre ao teatro para sofrê-las de novo!
Se não me engano, num dos versos das Elegias de Duino, Rilke diz que o Belo é o trágico que
contemplamos sem que ele possa nos destruir. Frida
é uma maravilhosa história do triunfo da beleza sobre
o trágico. Dia
das Mães: almoço festivo no Dalí! Reservas:
3212.3697. (Correio Popular, 11/05/2003)
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