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| Quarto de badulaques (XLI) |
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Não
escrevi nada sobre a Hilda Hilst. A sua poesia me deixa
mudo. Quando a leio tenho a sensação de estar no meio
de uma floresta densa, encantada, cheia de mistérios.
Frost escreveu: “Os
bosques são belos, sombrios, fundos...” Nos
bosques belos, sombrios, fundos há silêncio. Assim eu
faço silêncio diante da Hilda e da poesia que a
escolheu. Sinto que cada palavra minha seria profanação
de um lugar sagrado. ·
É
preciso entender que os poetas nunca falam sobre as
coisas sobre que estão a falar. Falam sobre as coisas
para falar sobre si mesmos. É isso que são as metáforas.
Retratos da alma. Fernando Pessoa escreveu sobre as
estrelas... Tão distantes. Mas era sobre si mesmo que
falava. “Tenho
dó das estrelas / luzindo há tanto tempo, / há tanto
tempo.../ Tenho dó delas. / Não haverá um cansaço
das coisas, / de todas as coisas, / como das pernas ou
de um braço? / Um cansaço de existir, / de ser, / só
de ser, / o ser triste brilhar ou sorrir.../ Não haverá,
enfim, / para as coisas que são, / não a morte, / mas
sim uma outra espécie de fim, / ou uma grande razão
– qualquer coisa assim / como um perdão?” Sim,
ele estava muito cansado. Seu cansaço deveria ser tão
grande como o cansaço das estrelas, brilhando sem fim,
desejando apagar e dormir. ·
Debussy
musicou um poema de Mallarmé, “La
Cathedrale engloutie”, a catedral submersa.
Ouvindo a música a fantasia nos leva para as funduras
do mar, a luz se filtrando através das águas
inquietas, vitrais de corais, anemonas, peixes coloridos
e os nossos olhos, “dois baços peixes”, à procura,
encantados. E se ouve o som dos sinos misturado ao silêncio
das águas... Místico. Pensei em escrever um poema
parecido, “La
biblioteque engloutie”, a biblioteca submersa... Issa
idéia me veio quando me lembrei de algo que aconteceu
em 1964. Eu acabara de voltar dos Estados Unidos onde
passara um ano, estudando. Logo depois do golpe. Meus
livros haviam ficado em Lavras, Minas, onde eu fora
pastor de uma igreja presbiteriana. Eu havia sido
delatado como subversivo embora jamais tenha pertencido
a qualquer organização política. Por todos os lados
pululavam os delatores. Em tempos de violência política
a delação é uma prova de amor e subserviência aos
donos das armas. A delação liga os delatores aos
poderosos, o que lhes dá uma deliciosa sensação de
poder impune: “Os outros estão à mercê da minha palavra!”. Precisava eliminar
as provas da minha subversão. Os livros. Em tempo de
ditadura pensar é crime. Só se permitem hinos patrióticos.
Livros completamente inocentes. Um deles, “Communism
and the theologians”, um simples relatório de opiniões
de teólogos sobre o comunismo, tinha a capa vermelha
com a foice e o martelo. Não poderia esperar que o
capitão inquisidor soubesse inglês e se desse ao
trabalho de ler. As fogueiras já estavam acesas. Era
preciso encontrar as bruxas para justifica-las. Os
militares haviam tomado conta da cidade. Muitas pessoas
presas. Eu seria uma das próximas. Impossível queimar
os livros. Um amigo meu, Sílvio Modesto, fazendeiro,
fez a sugestão: que eu ensacasse os livros e ele os
jogaria no fundo do rio Grande. Foi o que fiz. Dezenas
de livros foram para o fundo do rio Grande. Devem estar
lá, acervo da biblioteca submersa “Rubem Alves”,
frequentada por lambaris,
piabas e dourados... Algum compositor se oferece para
musicar o meu poema? ·
Patativa
do Assaré: “Prá gente aqui ser poeta /não precisa professor. / Basta vê no meis
de maio / um poema em cada gaio /um verso em cada fulô.”
“Prefiro falá as coisa certa com as palavra errada a falá as coisa
errada com as palavra certa”. ·
As
férias podem ser perigosas porque elas nos expõem a
experiências insólitas. Camus sabia disso e disse que
viajava só prá ter medo. Pois uma coisa incomum me
aconteceu nas últimas férias que jamais poderia ter
acontecido em Campinas. Peguei um berne. Ou melhor, uma
mosca varejeira me pegou. Prá quem não sabe varejeira
é uma mosca caipira parecida com as moscas urbanas, só
que maior. Não querendo se ocupar com os incômodos da
maternidade ela põe seus ovos em carne viva, boi, cães,
seres humanos. Assim ela garante o alimento da larva sem
ter de se preocupar.
( Há uma vespa que faz a mesma coisa. Caça uma aranha
de abdomem gordo, leva-a para dentro de sua toca, imobiliza-a com um líquido
paralisante, põe seus ovos sobre sua gorda barriga e se
manda, para nunca mais. Quando nascem as larvas elas têm
carne fresquinha à sua disposição, sem que a aranha
possa fazer qualquer coisa...) A gente não sente quando
a varejeira pousa na pele. Sente só quando ela enfia o
ferrão e põe o ovo. Aí o ovo vai crescendo...
Coceira. Ferroadas a intervalos. Espremer não adianta
porque o berne não é bobo, refugia-se no fundo da
carne. Vai crescendo, engordando, na forma de um
mini-vulcão com uma mini-cratera, respiradouro. Os
homens do campo se valem de um artifício simples para
extrair o berne. Colocam um pedaço de toucinho sobre o
vulcanículo, preso com um esparadrapo. O berne fica sem
ar, sufocado. Trata de procurar ar para não morrer. Vai
para a superfície e entra dentro do toucinho. Aí é só
tirar o esparadrapo que o berne está lá. Não sei
direito o que acontece se o berne se desenvolver até o
fim. Acho que ele se transforma em varejeira e sai
voando. Tive calafrios ao pensar nisso. Lembrei-me do
filme " Allien..."
O berne me fez pensar que o mundo está cheio de
varejeiras que nos injetam ovos que vão crescendo vida
afora, dando ferroadas. Malditos bernes que não podem
ser espremidos com toucinho porque
se alojam nos sentimentos e nas idéias. Tenho
muitos bernes na minha alma, bernes que coçam e
dão ferroadas. O problema é que eles, por oposição
aos bernes da varejeira, não saem voando, gostam de
permanecer bernes dentro
da alma. Com o tempo a gente até passa a gostar deles,
em virtude de sua coceirinha. Ficam porque gostamos...
Meu berne não saiu nem com toucinho e nem com
espremeções. Precisei apelar para a ação de uma
dermatologista que teve de fazer uma mini-cirurgia...
Agora estou livre de ferroadas e coceiras. ·
Gosto
do apartamento em que vivo. A vista é muito bonita, vê
ao longe... Quando o vento é forte ele assobia de forma
sinistra e musical. Minha filha Raquel, paisagista, me
fez um lindo jardim na pequena varanda. Assentado na
sala ouço música ( nesse momento estou ouvindo o final
da Abertura 1812 de Tchaikovski ) , vejo o jardim, a
cidade, a chuva e gozo o vento na minha pele. Mas tenho
uma tristeza. Moro no oitavo andar. Os passarinhos não
me visitam. Tentei. Pus comida para eles. Inutilmente.
Guimarães Rosa diz que há dois tipos de altura: altura
de urubu ir, e altura de urubu não ir. Quem sabe só
urubu tem coragem de subir até a altura do oitavo
andar... Se eu pudesse acrescentaria um novo direito à lista de Direitos Humanos: “Toda pessoa tem o direito ao silêncio na sua casa.” A casa é o meu espaço. Quero silêncio para ler um livro, escutar a música de que gosto, conversar com os amigos. Se eu resolver ouvir os meus CDs a todo volume, depois das 22 horas, meus vizinhos protestarão e a assembléia do prédio me obrigará ao silêncio. O respeito ao silêncio é uma das provas de cidadania. Como todo mundo sabe a minha liberdade vai somente até o lugar onde se inicia a liberdade do outro. Mas o fato é que o barulho de alguns barzinhos torna a vida dos vizinhos um inferno. Um amigo meu, com a esposa gravemente enferma, sofrendo muitas dores, tinha de conviver com a barulheira do famoso bar da esquina, cujo nome não quero dizer mas que, se preciso for, eu direi. Uma amiga tem de deixar o seu apartamento porque o barulho do barzinho recém aberto, na rua Pe. Vieira, é infernal. Faz uns dias um tradicional bar do Centro de Convivência patrocinou uma noite musical e o som se ouvia a vários quarteirões de distância. Parece que as autoridades ou não se interessam ou não sabem o que fazer. Uma vez chamei a polícia para por fim a um barulho insuportável às 5 horas da madrugada. Responderam-me que nada podiam fazer. Assim, quero fazer uma sugestão para acabar com o barulho dos barzinhos. É fácil. Basta que os vizinhos estejam de acordo. Seguindo a sabedoria homeopática que diz que semelhante se cura com semelhante, digo que som alto se cura com som alto. Sugiro, então, que os vizinhos que não podem gozar o silêncio das suas casas se organizem. Arranjem um bom aparelho de som. Coloquem-no na janela de um apartamento, direcionado para o barzinho barulhento. E aí toquem, a todo volume... música clássica. Inimigo maior do barulhos dos barzinhos que música clássica não existe. Sugiro: o 1o. movimento do concerto n. 1 de Tchaikovski, a Abertura 1812, especialmente a parte onde entram em ação os sinos e as salvas de artilharia, o último movimento da 9a. sinfonia, o coro dos ferreiros da ópera Ainda. Garanto que todos fugirão apavorados. “Amantes do silêncio: uni-vos!”
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