Fui apresentado
à poesia da Helena Kolody poucas semanas atrás.
Foi uma descoberta que me trouxe alegria. Não porque
seus poemas sejam alegres. Todos eles têm uma pitada
de tristeza. A Adélia sabe que o que é bonito
enche os olhos dágua. A beleza vem sempre misturada
à tristeza. Na coleção, gostei desse
mínimo poema: “Buscas ouro nativo entre a ganga
da vida. Que esperança infinita no ilusório
trabalho...Para cada pepita, quanto cascalho” (Helena
Kolody, Positivo, Curitiba).
Gosto
de ler as Escrituras Sagradas. Mas leio como quem garimpa
ouro. Para se encontrar uma pequena pepita quanto cascalho
há de se jogar fora! Acho até que foi arte de
Deus... Foi ele mesmo que misturou cascalho e pepitas, prá
separar os maus dos bons leitores. Os maus leitores não
sabem separar as pepitas do cascalho...
Nas minhas
garimpagens encontrei essa pepita: “Melhor é
a tristeza que o riso. Porque com a tristeza do rosto se faz
melhor o coração.”
Esse texto
me apareceu na memória quando eu pensava sobre aquela
pergunta sem resposta que deixei ao final do meu último
artigo: “Como se pode ensinar compaixão?”
A compaixão é triste? Ensinar compaixão
será ensinar a tristeza? Tristeza será coisa
que se ensine? Haverá uma pedagogia da tristeza? Estranho
pensar que um professor, ao iniciar o seu dia, possa dizer
para si mesmo: “Vou ensinar tristeza aos meus alunos...”
Eu mesmo nunca havia pensado nisso. E todos os terapeutas,
não importando a sua seita, em última instância
estão envolvidos numa batalha contra a tristeza. E
agora eu digo esse absurdo, que tristeza é prá
ser ensinada, para fazer melhor o coração.
Os poetas
me entendem. A poesia nasce da tristeza. “Mas eu fico
triste como um por de sol quando esfria no fundo da planície
e se sente a noite entrada como uma borboleta pela janela”,
escreveu Alberto Caeiro. E conclui: “Mas minha tristeza
é sossego porque é natural e justa e é
o que deve estar na alma...” Tristeza natural e justa,
que deve estar na alma!
Num outro
lugar Fernando Pessoa escreveu algo mais ou menos assim: “Ah!
A imensa felicidade de não precisar de estar alegre...”
Existe uma perturbação psicológica ainda
não identificada como doença. Ela aparece num
tipo a que dei o nome de “o alegrinho”. O alegrinho
é aquela pessoa que está, o tempo todo, esbanjando
alegria, dizendo coisas engraçadas, e querendo que
os outros riam. Ele é um flagelo divino. Perto dele
ninguém tem a liberdade de estar triste. Perto dele
todo mundo precisa estar alegre... Porque ele não consegue
estar triste, o alegrinho não consegue ouvir a beleza
dos noturnos de Chopin, nem sentir as sutilezas da poesia
da Sophia de Mello Breyner Andressen e nem gozar o silêncio
da beleza do crepúsculo. Porque ele está sempre
alegrinho, na sua alma não há espaço
para sentir a compaixão. Para haver compaixão
é preciso saber estar triste. Porque compaixão
é sentir a tristeza de um outro.
Contei
do menino que chorou ao ler a estória do O patinho
que não aprendeu a voar. Aconteceu assim: o seu pai
comprou o livro esperando que ele fizesse o seu filho dar
muitas risadas. Voltou no dia seguinte muito bravo. Trazia
o livro na mão, para devolvê-lo. Ao invés
de dar risadas, ao final da estória o seu filho pôs-se
a chorar. A estória é, de fato, triste. Eu a
escrevi para o meu filho que estava passando por uma crise
de vagabundagem. O seu prazer nas vagabundagens era tanto
que ele não queria saber de aprender. O patinho também
não queria saber de aprender. Não pode voar
com seus irmãos quando chegou a estação
das migrações.
O menininho
tinha razões para chorar? Não. As razões
do seu choro não eram dele. Eram do patinho. Ele sofria
o sofrimento do patinho. O seu coração batia
junto ao coração do patinho. Mas o patinho não
existia. Era apenas um personagem inventado de uma estória
do mundo do “era uma vez”. E o menino sabia disso.
Mas, a despeito disso, ele chorava. Aqui está um dos
grandes mistérios da alma humana: a alma se alimenta
com coisas que não existem.
Eu havia
levado minha filha de seis anos para ver o E.T. Ao fim do
filme ela chorava convulsivamente. Jantou chorando. Resolvi
fazer uma brincadeira: “Vamos no jardim ver a estrelinha
do E.T!” Fomos, mas o céu estava coberto de nuvens.
Não se via a estrelinha do E.T. Improvisei. Corri para
trás de uma árvore e disse: “O E.T. está
aqui!” Ela me disse: “Não seja tolo, papai.
O E.T. não existe! Contra ataquei: “Não
existe? E porque você estava chorando se ele não
existe?” Veio a resposta definitiva: “ Eu estava
chorando porque o E.T. não existe...”
Volto
então à pergunta que fiz sem saber a resposta.
O menino chorou ao ler a estória do patinho. Mas o
patinho não existia. Minha filha chorou ao ver o filme
do E. T. Mas o E.T. não existia. Pensei então
que um caminho para se ensinar compaixão, que é
o mesmo caminho para se ensinar a tristeza, são as
artes que trazem à existência as coisas que não
existem: a literatura, o cinema, o teatro. As artes produzem
a beleza. E a beleza enche os olhos dágua... Como dizem
as Escrituras Sagradas, “com a tristeza do rosto se
faz melhor o coração.”