O título
mais simples para esse artigo seria: “Avaliação
da educação”. Mas não quero misturar
“educação” com aquilo que as escolas
fazem. A educação é algo que transborda
dos limites das escolas. Por vezes ela se choca com as escolas.
Acho que foi Mark Twain que disse que não permitia
que a escola interferisse na sua educação...
Educação é aquilo que passa a fazer parte
do nosso ser. Parte do que sou tem a ver com a música
erudita sobre a qual nada se disse nas escolas que freqüentei.
Era como se não existisse. Não fazia parte do
programa. O mesmo é verdadeiro em relação
ao meu prazer em ler, escrever, contemplar a natureza. Essas
coisas são parte de mim mesmo. Mas não foi nas
escolas que as aprendi.
Quando
um professor tenta ensinar alguma coisa ele tem de pressupor
que aquilo é importante, não vai ser esquecido,
vai fazer uma diferença na vida do seu aluno. Caso
contrário o seu trabalho não terá sentido.
Assim, ele deve ter a curiosidade de saber sobre o destino
das informações e habilidades que tentou ensinar.
O que aconteceu com elas?
Quero
sugerir um método para se fazer isso valendo-me de
uma metáfora. Imagine que você resolveu se dedicar
ao negócio de fabricação de salsichas.
Para isso, para transformar carne em salsichas, há
uma máquina. Numa das extremidades da máquina
coloca-se a carne. Aperta-se um botão. A máquina
se põe a funcionar. Na outra extremidade saem as salsichas,
prontinhas. Para se avaliar se a máquina é comercialmente
vantajosa basta comparar o peso da carne que foi colocada
no funil de entrada com o peso das salsichas produzidas. Se,
na entrada, se colocaram 100 quilos de carne e saíram
95 quilos de salsichas, a máquina é ótima.
Mas se só saírem 10 quilos de salsichas, a máquina
não presta.
Imaginei
que se poderia avaliar o desempenho das escolas por meio de
um exame elaborado segundo o modelo da máquina de salsichas.
O objetivo seria comparar o que entrou com o que ficou. Freqüentei
escolas por dezessete anos: quatro anos no curso primário,
um no curso de admissão, quatro no ginásio,
três no curso científico e cinco no curso superior.
Multipliquei o número de meses, pelo número
de dias, pelo número de horas, pelo número de
anos: cheguei ao número 16.320 – o número
de horas que passei assentado em carteiras ouvindo as coisas
que os professores tentavam me ensinar. É claro que
esse número deve estar errado. Seja. De qualquer forma,
é muito tempo o tempo de vida que se passa assentado
nos bancos escolares. O que sobrou? O exame seria assim:
Primeiro:
o programa seria constituído de tudo, absolutamente
tudo que se pretendeu ensinar nesses 17 anos, do primeiro
ao último ano.
Segundo:
aqueles que vão fazer o exame não assinarão
os seus nomes porque o que se procura não é
o desempenho individual mas o desempenho da máquina
escolar.
Terceiro:
será proibido freqüentar cursos preparatórios
para tais exames. Será proibido também recordar
a matéria. Se isso fosse feito o propósito do
exame seria abortado. Imagine que um diabético tem
de fazer um exame de sangue para testar seu nível glicêmico.
Mas ele, malandro, querendo enganar o médico, na véspera
do exame só come alface com bife e no dia seguinte
pela manhã toma um comprimido de Amaril. O resultado
do exame seria totalmente falso. O aprendido é aquilo
que fica depois que o esquecimento fez o seu trabalho. O exame
que proponho quer saber o que sobrou. Se os examinandos se
prepararem para o exame os resultados não revelarão
o que realmente sobrou, mas o que foi colocado na memória
na última hora.
Eu me
sairia muito mal. Não me lembro das classificações
das rochas. Lembro-me dos nomes “dolomitas” e
“piroclásticas”, mas não sei o que
significam. Esqueci-me do “crivo de Erastóstenes”.
Não sei fazer raiz quadrada. Não sei onde se
encontra a serra da Mata da Corda. Também me esqueci
das dinastias do faraós e dos nomes dos imperadores
romanos. Lembro-me do princípio de Arquimedes mas não
sei a lei de Avogadro. Não aprendi Latim, o que me
causa grande dor porque Latim é música. Sei
pouquíssimo de análise sintática, o que
não me faz falta para escrever. Escrevo com meu ouvido.
Acho que dos 100% de saberes que as escolas tentaram enfiar
dentro de mim só sobrariam uns 10%. Você depositaria
suas economias mensalmente, num fundo de investimento, por
dezessete anos, se você soubesse que depois desses dezessete
anos você iria receber só 10% do que você
depositou?
Alguns
concluirão que a culpa é dos professores. Outros
que a culpa é dos alunos. Não creio que a culpa
seja dos professores ou dos alunos. Acho mesmo é que
culpa é da carne que se põe na máquina:
ela está estragada. As salsichas cheiram mal. O nariz
as reprova. Se comidas, produzem perturbações
gástricas. O jeito é vomitá-las. Concluo:
a performance das escolas melhorará se a carne estragada
for substituída por uma carne que produz salsichas
apetitosas...