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JEREMIADA

 

Paulo Bearzoti

 

 

Amaldiçoou Jeremias o dia de seu nascimento.

Que aquele dia não fosse bendito no calendário.

Lamentou ter sido dado à luz do firmamento,

Pois nascido, foi de tristeza e vergonha  seu calvário.

 

Amaldiçoou quem deu a seu pai a notícia

De que lhe nascera um filho varão.

Já que amaldiçoar os pais a lei mosaica lhe proibia,

O profeta destinou ao anunciante a maldição.

 

Em lamúria, o profeta suspirou pelo ventre materno,

Refúgio onde o ser está apesar de ainda não ser,

O berço primeiro e terno

Do ser que virá a ser.

 

Desejou ter nascido antes do tempo,

Preferia que sua mãe tivesse tido um aborto

A passar por tanto sofrimento.

Antes a morte prematura tivesse sido o seu porto!

 

E lamentou o profeta que o ventre materno

Não tivesse sido o seu primeiro e último abrigo.

Por que não foi ele além de terno, eterno,

Vaso matricial e jazigo?

 

Se o profeta que ouviu de Deus a voz,

Ao sofrer, amaldiçoou seu nascimento,

O que esperar de simples criaturas como nós

Diante do cálice do sofrimento?

 

Contudo apesar da tristeza, da vergonha e dos lamentos,

O profeta prosseguiu cumprindo sua missão,

Continuou profetizando os eventos

Como lhe ordenara o Senhor da Criação.