(Sobre Helena Kolody)
"Sou como
aqueles poemas. Li os poemas e senti o espanto de me descobrir. O poema me diz.
Diz o que eu já sabia sem saber. Bem disse Bernardo Soares que ' arte
é comunicar aos outros a nossa identidade íntima com eles'. Meu rosto aparece
refletido no espelho de vidro. Dentro dele, do espelho, vejo diariamente meu
rosto conhecido. Meu reflexo não me surpreende. Mas o poema é um espelho onde a
minha alma, desconhecida, aparece refletida. Espanto-me. Nunca me havia visto
assim.. O poema me mostra a beleza da minha alma - que eu não via. Por
isso a poesia é salvação. Na minha solidão dou-me conta de que existe uma outra
pessoa cuja alma se parece com a minha. Fico grato porque tal pessoa
existe.
Minha
solidão se transforma em comunhão."
Rubem Alves
Quarto de Badulaques
LXXVII
Correio Popular
25/09/05